quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O ENIGMA DE KASPAR HAUSER (1812?-1833)

UMA ABORDAGEM PSICOSSOCIAL  


A partir de uma abordagem histórico-cultural em Psicologia, este trabalho analisa o percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser, um personagem real e enigmático que, quando encontrado em Nuremberg, em 1928, com supostamente 15 anos, não sabia falar, nem andar e não se comportava como humano. Até hoje o seu enigma persiste: apesar de muitas hipóteses e suspeitas, não se descobriu sua origem. Apoiando-se em estudos de Vygotsky e Luria, que indicam que a percepção depende, sobretudo, da práxis social, necessária para gestar o referencial cultural de apreensão da realidade, a autora analisa como se articulam linguagem e pensamento no desenvolvimento cognitivo de Kaspar Hauser e como ele concebe o mundo que o cerca, tendo sido privado dos filtros e estereótipos culturais que condicionam a percepção e o conhecimento.

Descritores: Hauser, Kaspar. Cultura. Educação. Estigma. Linguagem. Socialização.





Vocês não ouvem os assustadores
 gritos ao nosso redor que
 habitualmente chamamos de silêncio?
(Prólogo do Filme O Enigma de Kaspar Hauser de Herzog, 1974)





1. Introdução

Trabalhando com a perspectiva histórico-cultural em Psicologia, que enfatiza que cada ser humano se constitui como uma pessoa totalmente única (por suas experiências e sua história de vida) e que ressalta a importância das práticas culturais na definição do desenvolvimento psicológico do sujeito, buscou-se selecionar um personagem humano (Kaspar Hauser) que não correspondia, na época em que viveu (séc. XIX), aos padrões de comportamento tidos ou esperados como "normais" dentro da cultura da época.

Pretende-se analisar neste trabalho o percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser, buscando a compreensão de fatores que concorreram para a construção de seu psiquismo.

Para efetuar esta análise, pretende-se utilizar as referências sobre a vida do rapaz encontradas em diversas fontes, inclusive jornais e, principalmente, no filme 
O Enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog (1974) e nos livros Kaspar Hauser ou a Fabricação da Realidade, de Izidoro Blikstein (1983) e The Lost Prince: The Unsolved Mistery of Kaspar Hause, de Jeffrey Moussaieff Masson (1997).



2. A história de Kaspar Hauser

O menino Kaspar Hauser apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, em maio de 1828. Era um estranho: ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Trazia uma carta de apresentação anônima para o capitão da cavalaria local, contando que fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um cavaleiro como fora seu pai.

Ficou-se sabendo mais tarde (quando K. Hauser aprendeu a falar) que uma pessoa, que ele não conheceu, tratava dele enquanto esteve isolado, deixando-lhe alimentos enquanto ele dormia.

Acolhido na casa de um professor que se ocupou de iniciar sua socialização, é assassinado em 1833
(o filme de Werner Herzog sugere que K. Hauser foi assassinado pelo próprio pai).

Quando apareceu em Nuremberg, o garoto não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: "quero ser cavaleiro" e não sabia andar direito. Parecia um menino dentro de um corpo adolescente. Seu comportamento estranho para os padrões sócio-culturais estabelecidos, causava um misto de espanto e interesse. Era visto como um "garoto selvagem," apesar de demonstrar ser dócil, simples e gentil. Possuía algumas habilidades peculiares interessantes, descritas tanto no filme de Herzog, quanto na obra de Masson: conseguia enxergar muito longe, no escuro, e sabia tratar os animais, principalmente os pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. Numa das cenas, atraído pela chama de uma vela, colocava seu dedo no fogo e, ao sentir dor, aprende que a chama queima.

Graças à sua curiosidade infantil e memória notável, aprendeu várias coisas muito depressa.

Kaspar Hauser tornou-se uma espécie de atração por sua história de vida diferente. Todas as pessoas da cidade queriam vê-lo. O filme de Herzog mostra, em uma das cenas, K. Hauser junto com outros indivíduos, tidos como anormais (um anão, um índio e uma criança autista), em exposição num circo.

Um ano depois de ter chegado a Nuremberg, foi ferido e recebeu um grande corte na fronte. Em dezembro de 1833, recebeu outro ferimento que lhe seria fatal. Herzog sugere, em seu filme, que os dois ferimentos sofridos por K. Hauser foram tentativas de assassiná-lo. Masson diz, em seu livro, que em dezembro de 1833, K. Hauser foi atraído para uma emboscada, com a promessa de receber informações sobre seu nascimento. No local, em vez disso, recebeu uma facada no peito, morrendo três dias depois.



3. O enigma de Kaspar Hauser

Muitas foram as hipóteses levantadas para explicar o fato de Kaspar Hauser ter sido criado no isolamento. Dentre essas hipóteses há duas explicações principais:

a primeira diz que Kaspar Hauser seria um mendigo espertalhão que fingia ser pobre de espírito para atrair a simpatia alheia. Dentro dessa visão, ele próprio teria se ferido para atrair mais atenção, ao perceber que o interesse dos outros por sua figura estava diminuindo.

a segunda explicação trabalha com a hipótese de que Kaspar Hauser seria 
neto de Napoleão Bonaparte.

O livro de Masson (1997) oferece documentação variada sobre esta segunda hipótese, argumentando que a filha adotiva de Napoleão, Stéphanie de Beauharnais, tinha-se casado com Karl, duque de Baden e, em 1812, ambos tiveram um filho a quem ela teria dado o nome de Gaspard. No entanto, Luise, a madrasta de Karl, segunda mulher de seu pai, querendo garantir para seu próprio filho a herança do trono de Baden, trocou o filho de Karl e Stéphanie por uma criança doente que morreu logo depois.

O herdeiro saudável foi posto a pão e água em um calabouço, atendido por um homem cujo rosto ele nunca via. Passava seu tempo dormindo ou brincando com um cavalinho de pau. Quando chegou perto da adolescência, o homem que cuidava dele levou-o para Nuremberg.

A fama que começou a granjear preocupou os conspiradores, a tal ponto, que recrutaram um inglês, o Conde de Stanhope, para aproximar-se do garoto, fingindo ser um amigo que queria protegê-lo. Segundo Masson, teria sido Stanhope o responsável pelas duas tentativas de assassinar Kaspar Hauser; na verdade, o crime nunca foi esclarecido.

Porém, a tese de Masson de que Kaspar Hauser seria um príncipe perdido foi refutada por um exame de DNA, cujo resultado, revelado em abril de 1997, na Alemanha, mostra que Kaspar Hauser não era herdeiro do trono de Baden, como se acreditava.2

Dois institutos forenses da Alemanha compararam restos de sangue achados na roupa de Kaspar Hauser com o sangue de duas mulheres da dinastia de Baden, ainda vivas. Ficou provado, então, que Kaspar Hauser não pertencia a essa linhagem - e o enigma foi retomado.



4. Análise do percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser

Criado no isolamento e privado de educação, condicionamento e repressão, é este processo de integração que Kaspar Hauser sofrerá em Nuremberg, e seu instrumento principal será a linguagem, pela qual a sociedade tentará fazê-lo conceber aquilo que sua natureza não concebe: a representação.

O século XIX, época em que Kaspar Hauser viveu, foi um período marcado pela perspectiva positivista, evolucionista e desenvolvimentista. A visão de que havia um modelo de civilização e de desenvolvimento a ser alcançado, tanto pelos homens, como pelas sociedades, estava em seu auge. Todos aqueles que não correspondiam ao protótipo do homem "civilizado" eram classificados como primitivos, atrasados e deveriam ser "ajudados" a alcançar graus mais avançados na escala de desenvolvimento e evolução. É dentro dessa visão de mundo que Kaspar Hauser vai ser socializado.

Ao chegar em Nuremberg Kaspar Hauser sabe apenas repetir, com dificuldade, a mesma frase ("quero ser cavaleiro como meu pai"). A sociedade o vê com estranheza. Ele próprio se vê, de repente, num mundo estranho. O filme de Werner Herzog mostra Kaspar Hauser na praça de Nuremberg com um olhar assustado. Na verdade tudo lhe é estranho: as dimensões, os movimentos, a perspectiva, o pensamento, a fala.

Com o tempo aprende a falar. Mas mesmo a linguagem não lhe permite capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Numa das passagens do filme Kaspar Hauser olha, do campo, a torre em que fica seu quarto e observa que ela é muito menor do que ele próprio. "Como pode ser isto?" pergunta.

Kaspar Hauser se sente confuso pois não tem a mínima noção de que a distância de onde observava criara uma perspectiva que fazia com que a torre parecesse menor do que realmente era.

Quando seu tutor aproxima-se com ele da torre, vem a observação: "Como esta torre é grande! O homem que a construiu deve ser muito alto!"

A paisagem em que Kaspar Hauser foi colocado, apesar de explicada pela linguagem, pelas palavras, por signos lingüísticos, permanece, para ele, indecifrável. Muitas vezes, pedia para contar histórias que imaginava, mas não conseguia verbalizar o conteúdo pensado.

Conhecer o mundo pela linguagem, por signos lingüísticos, parece não ser suficiente para Kaspar Hauser "talvez por que a significação do mundo deve irromper antes mesmo da codificação lingüística com que o recortamos: os significados já vão sendo desenhados na própria percepção/cognição da realidade" (Blikstein, 1983, p. 17). Nesse sentido, também Vygotsky insiste que o pensamento e a linguagem se originam independentemente, fundindo-se mais tarde no tipo de linguagem interna que constitui a maior parte do pensamento maduro.

Kaspar Hauser parece não entender as explicações que lhe dão. As pessoas impõem todos os tipos de signos a ele, na certeza de que compreenderá o insólito ambiente que o cerca. Como K. Hauser poderia compreender o significado das palavras e que elas representam coisas, se não passou por um processo de aprendizado e socialização necessários para que compreendesse a representatividade dos signos? Blikstein (1983) diz que a educação não passa de uma construção semiológica que nos dá a ilusão da realidade; ou seja, a educação vai estimulando na criança um processo de abstração. É justamente esse processo que K. Hauser não vivenciou.

A forma diferente como ele percebia a realidade parecia suficiente para que fosse visto como "diferente," estranho, o "outro" pela sociedade da época. Ele próprio se via como um estranho, deslocado, frágil e impotente diante de uma realidade que não conseguia compreender, pelo menos não da forma como esperavam que ele compreendesse.

Os objetos não eram percebidos por K. Hauser da forma como a prática social definia previamente, ou seja, K. Hauser estava despido dos "filtros" e estereótipos culturais que condicionam a percepção e o conhecimento. Tais "filtros" ou estereótipos, por sua vez, são garantidos e reforçados pela linguagem. Assim, o processo de conhecimento da realidade é regulado por uma contínua interação de práticas culturais, percepção e linguagem.

A forma como Kaspar Hauser compreende o mundo e se relaciona com ele indica que a percepção depende sobretudo da prática social. Sabemos que, do nascimento à adolescência, K. Hauser esteve isolado de qualquer contexto ou prática social. O que podemos verificar no seu percurso de desenvolvimento psicológico é que a despeito da ação da linguagem (adquirida na fase adulta) ou de um eventual "potencial" inato, K. Hauser não consegue captar o mundo como o faz a sociedade que o cerca, ou seja, decodifica à sua maneira, com uma lógica diferente da estabelecida, a significação do mundo. Fica evidente, então, que o seu sistema perceptual está desaparelhado de uma prática social3 necessária para gestar o referencial cultural de interpretação da realidade.

Podemos concluir que, como Kaspar Hauser não passou por um processo de socialização, onde exercitaria a compreensão através da prática social, não consegue atribuir significado às coisas, mesmo tendo adquirido a linguagem. Assim, analisando o caso de Kaspar Hauser, somos levados a pensar que não apenas o sistema perceptual, mas as estruturas mentais e a própria linguagem são resultantes da prática social, ou seja, as práticas culturais "modelam" a percepção da realidade e o conhecimento por parte do sujeito.

Em virtude de não ter sido exposto a essa "modelagem" cultural, Kaspar Hauser era visto como um ser "incompleto," como se estivesse sempre em "déficit" em relação aos outros; teria Kaspar instrumental de reflexão internalizado para construir a compreensão da diferença? Aqui parece ser possível detectar uma inverossimilhança no filme de W. Herzog: numa das cenas, K. Hauser diz a uma das pessoas que o acolheu: "Ninguém aceita Kaspar." Segundo o filme, ele tem consciência de sua situação. Porém, na realidade, parece não ser possível esse grau de consciência em alguém que não tem instrumental de reflexão internalizado.

Kaspar Hauser se sente perturbado pelo mundo: "o mundo é todo mau," comenta com seu tutor após perceber que alguém pisou as flores que plantara no jardim.

Tanto Masson (1997), quanto Herzog (1974) e Blikstein (1983), apontam para o fato de que após algum tempo de convivência com a comunidade de Nuremberg, Kaspar Hauser passa a representar um incômodo, pois vê a realidade, que aos olhos dos outros estava tão bem ordenada, com outros olhos: os olhos "subversivos" que não aceitam os referenciais que a sociedade insiste em lhe impor, negando, de certa forma, a ordem social vigente. Ele olha as pessoas, os objetos e as situações com o espanto e a perplexidade de um olhar "puro," sem "filtros" ou estereótipos perceptuais. A sua aproximação cognitiva da realidade é direta, ou seja, percebe o mundo de uma maneira ainda não programada pela estereotipia cultural.

Vygotsky, citado por Oliveira (1997, p. 24), diz que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas uma relação mediada, sendo que os sistemas simbólicos são os elementos intermediários entre o sujeito e o mundo; porém, tendo vivido no isolamento, K. Hauser não aprendeu nem internalizou este sistema simbólico que, para ele, não fazia sentido.

Somente depois de muito tempo convivendo com a comunidade de Nuremberg é que Kaspar Hauser começa a entender a relação simbólica e a relação de representatividade entre os signos e as coisas concretas.

Em um dos diálogos no filme de Herzog, K. Hauser conta ao seu tutor que havia sonhado com uma caravana. O tutor fica animado e lhe diz: "que bom Kaspar! Você fez um grande progresso! Já sabe a diferença entre o sonho e a realidade! Até a semana passada você não fazia esta distinção, acreditava que as coisas sonhadas haviam acontecido realmente ..."

A partir desse momento, Kaspar começa a se situar em relação ao mundo e às pessoas que o cercam. Parece tomar consciência de que era diferente dos outros e que, por isso, muitas vezes, era hostilizado.

Nesse sentido, Blikstein (1983) afirma que o que concebemos como realidade é apenas uma ilusão, pois a práxis opera em nosso sistema perceptual, ensinando-nos a "ver" o mundo com os "óculos sociais" e gerando conteúdos visuais, tácteis, olfativos e gustativos que aceitamos como naturais. Como Kaspar Hauser não passou por esta práxis, ou apenas começou a vivenciá-la quando adolescente, sua forma de comportamento abala os fundamentos da ilusão referencial, pois não "enxerga" a realidade da forma como os outros esperam. Essas expectativas das pessoas em relação a K. Hauser fazem com que sua identidade, já bastante comprometida devido à ausência de um passado familiar, torne-se ainda mais deteriorada.

K. Hauser não é reconhecido como parte da sociedade e ele próprio não se reconhece como parte dela. Em uma reunião da qual fora convidado a participar, em que estavam vários membros da alta sociedade, foi apresentado à esposa do prefeito de Nuremberg, que lhe perguntou como era sua prisão e ele respondeu: "melhor do que aqui fora."Vai sofrendo, assim, um processo de estigmatização que o marca, não apenas como "diferente" ou "anormal," mas também como alguém que não possui identidade.

Goffman (1988) define como estigmatizado o indivíduo que poderia ter sido recebido facilmente na relação social cotidiana, se não possuísse um traço que chama a atenção e afasta aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus. Ele possui uma característica diferente do padrão esperado. É exatamente o que ocorreu com K. Hauser. Embora ele tivesse muitos atributos e uma inteligência prodigiosa que lhe permitia aprender as coisas muito rapidamente é visto, por exemplo, como insensível porque não demonstra medo diante de um soldado que lhe mostra uma espada (que para os outros representa um sinal de perigo). Assim, não correspondia às expectativas de comportamento, ou seja, aos padrões de comportamento esperados de um jovem da sua idade.

Goffman afirma que acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente reduzimos sua chance de vida. Construímos uma teoria do estigma, uma ideologia para explicar a sua "inferioridade" e dar conta do "perigo" que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em outras diferenças como as de classe social. Vemos que isso ocorre, também, no filme de Herzog, quando é aventada a hipótese de que Kaspar Hauser seja filho de algum nobre (e que por disputas palacianas teria sido afastado e escondido), e o capitão da cavalaria diz que isso seria impossível, pois "K. Hauser tem traços muito grosseiros para ser um nobre"; e, quando, ao final do filme, os legistas acreditam finalmente ter encontrado as explicações para todos os "problemas" de Kaspar: uma pequena deformidade que ele possuía no cérebro. Dessa forma, o caso foi dado, na época, como solucionado: havia uma explicação racional, objetiva (porque visível e palpável - o cérebro), de caráter fisiológico e que concentrava no próprio indivíduo a "culpabilidade" de sua situação.




5. Conclusão

O caso de Kaspar Hauser serve para ilustrar o erro básico de uma organização social fundada sobre os princípios do racionalismo positivista.

Mostra-nos que a "humanização" do homem, entendida como socialização, não é uma decorrência biológica da espécie, mas conseqüência de um longo processo de aprendizado com o grupo social.

Através desse processo, o indivíduo se integra no grupo em que nasceu, assimilando o conjunto de hábitos e costumes característicos desse grupo. Participando da vida em sociedade, aprendendo suas normas, valores e costumes, o indivíduo está se socializando, reprimindo suas características instintivas e animais e desenvolvendo as sociais e culturais, fazendo, assim, a "passagem da natureza para a cultura," aprendendo a ver com os "óculos sociais," tornando-se, como nos disse C. Dickens, "um animal de costumes."

Kaspar Hauser nunca se transformou nesse animal de costumes; no máximo, poderia ser visto como "domesticado" pela sociedade da época.

Alguém como Kaspar Hauser que enxergava, mesmo na escuridão, e que ouvia os "gritos do silêncio" (coisas inconcebíveis para o homem "civilizado"), não poderia ser visto como "normal."

Mesmo tendo aprendido a andar, falar e escrever e apesar de haver internalizado símbolos de comportamentos, Kaspar Hauser nunca seria considerado um "igual" pela comunidade de Nuremberg, pois sua história de vida estava inevitavelmente marcada pelo estigma da rejeição.

Na lápide de Kaspar Hauser, no cemitério de Ansbach, na Alemanha, há uma inscrição que diz: "Hic occultus occultu uccisus est." Quer dizer: "Aqui jaz um desconhecido assassinado por um desconhecido." Nada resume melhor o misterioso percurso da vida e morte deste homem.

FILME:O ENIGMA DE KASPAR HAUSER


































Referências


Blikstein, I. (1983). Kaspar Hauser ou a fabricação da realidade. São Paulo: Cultrix / EDUSP.  
O Estado de São Paulo (1997, 09 de março). p. D-6. 
Goffman, E. (1988). Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara. 
Herzog, W. (1974). Jeder für sich und gott gegen alle. Alemanha: ZDF Produções (Original: Cada um por si e Deus contra todos. Traduzido como: O enigma de Kaspar Hauser) 
Masson, J. M. (1997). The lost prince: The unsolved mystery of Kaspar Hauser. New York: Free House.        
Oliveira, M. K. (1997). Vygotsky: Aprendizado e desenvolvimento, um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione.
Vygotsky, L. S., & Luria, A. R. (1996). Estudos sobre a história do comportamento: O macaco, o primitivo e a criança. Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A Anatomia, a Química e a Biologia do Amor

Então de repente, no bar, na festa, na praia, na fila do banco - não importa -, os olhos se encontram. Primeiro uma ansiedade, um calor no peito que logo se espalha em calafrios que procuramos disfarçar. Um leve suor nas mãos. No primeiro encontro, os lábios ressecam um pouco antes do primeiro beijo, as palavras tremem embaraçadas em pensamentos confusos. Joelhos que mal sustentam o peso do corpo. Esquecemos do mundo lá fora em eternas horas de silenciosa saudade ao telefone, perfumadas com aquela inquietude própria dos amantes...


Quem nunca sentiu coisa parecida? Pois os cientistas - sempre eles! - querem nos convencer que toda esta áurea sedutora de mistério que envolve os assuntos do coração não passa de uma meia dúzia de manifestações anatômicas e equações bioquímicas. Até onde a ciência pode realmente traduzir em números e estatísticas aquilo que para muitos de nós é a verdadeira essência dos céus na Terra: o Amor?

Primeiro, definindo o amor.

O amor é uma experiência consumptiva. Mergulhamos euforicamente nesta deliciosa tortura e não comemos ou dormimos direito. Freqüentemente, é difícil manter a concentração. A Dra. Donatella Marazziti, psiquiatra da Universidade de Pisa, acredita que pessoas "doentes de amor" estejam realmente doentes: sofrem de um distúrbio obsessivo-compulsivo. Inegavelmente, paixão e psicose obsessiva-compulsiva compartilham diversos aspectos comuns. E isto não é meramente uma teoria sem fundamentos: "ambos estados associam-se a baixos níveis cerebrais de serotonina, uma substância química fabricada pelo corpo que nos ajuda a lidar com situações estressantes", afirma a médica.

Uma segunda descoberta do trabalho da Dra. Marazziti e não menos importante merece ser mencionada: bebidas alcoólicas também diminuem os níveis de serotonina no cérebro, criando a ilusão de que a pessoa do outro lado do bar é o amor da sua vida. Portanto, cuidado com as noitadas.

Que seja eterno enquanto dure.

Existe um limite de tempo para homens e mulheres sentirem os arroubos da paixão? Segundo a professora Cindy Hazan, da Universidade Cornell de Nova Iorque, sim. Ela diz: "seres humanos são biologicamente programados para se sentirem apaixonados durante 18 a 30 meses". Ela entrevistou e testou 5.000 pessoas de 37 culturas diferentes e descobriu que o amor possui um "tempo de vida" longo o suficiente para que o casal se conheça, copule e produza uma criança. "Em termos evolucionários," - ela completa - "não necessitamos de corações palpitantes e suores frios nas mãos".

A pesquisadora identificou algumas substâncias responsáveis pelo Amor: dopamina, feniletilamina e ocitocina. Estes produtos químicos são todos relativamente comuns no corpo humano, mas são encontrados juntos apenas durante as fases iniciais do flerte. Ainda assim, com o tempo, o organismo vai se tornando resistente aos seus efeitos - e toda a "loucura" da paixão desvanece gradualmente - a fase de atração não dura para sempre. O casal, então, se vê frente a uma dicotomia: ou se separa ou habitua-se a manifestações mais brandas de amor - companheirismo, afeto e tolerância -, e permanece junto. "Isto é especialmente verdadeiro quando filhos estão envolvidos na relação", diz a Dra. Hazan.

Os homens parecem ser mais susceptíveis à ação das substâncias responsáveis pelas manifestações associadas ao Amor. Eles se apaixonam mais rápida e facilmente que as mulheres. E a Dra. Hazan é categórica quanto ao que leva um casal a se apaixonar e reproduzir: "graças à intensidade da ilusão romanceada que temos do Amor, achamos que escolhemos nossos parceiros, mas a verdade é conhecida até mesmo pelos zeladores dos zoológicos: a maneira mais confiável de se fazer com que um casal de qualquer espécie reproduza é mantê-los em um mesmo espaço durante algum tempo" - que o digam os processos de assédio sexual no local de trabalho...

Com base em pesquisas da Dra. Helen Fisher, antropologista da Universidade Rutgers e autora do livro The Anatomy of Love, pode-se fazer um quadro com as várias manifestações e fases do amor e suas relações com diferentes substâncias químicas no corpo:



Fórmulas do Amor: a paixão é uma reação química?

Os cientistas conhecem a Feniletilamina (um dos mais simples neurotransmissores) há cerca de 100 anos, mas só recentemente começaram a associá-la ao sentimento de Amor. Ela é uma molécula natural semelhante à anfetamina e suspeita-se que sua produção no cérebro possa ser desencadeada por eventos tão simples como uma troca de olhares ou um aperto de mãos.

O affair da feniletilamina com o Amor teve início com uma teoria proposta pelos médicos Donald F. Klein e Michael Lebowitz, do Instituto Psiquiátrico Estadual de Nova Iorque. Eles sugeriram que o cérebro de uma pessoa apaixonada continha grandes quantidades de feniletilamina e que esta substância poderia responder, em grande parte, pelas sensações e modificações fisiológicas que experimentamos quando estamos apaixonados. 

A Dra. Helen Fisher demonstrou que a inconstância, a exaltação, a euforia, e a falta de sono e de apetite associam-se a altos níveis de dopamina e norepinefrina, estimulantes naturais do cérebro. 

Alguns pesquisadores afirmam que exalamos continuamente, pelos bilhões de poros na pele e até mesmo pelo hálito, produtos químicos voláteis chamados Feromônios   (http://biobizarro.blogspot.com/2011/06/feromonios.html ) Atualmente, existem evidências intrigantes e controvertidas de que os seres humanos podem se comunicar com sinais bioquímicos inconscientes. Os que defendem a existência dos feromônios baseiam-se em evidências mostrando a presença e a utilização de feromônios por espécies tão diversas como borboletas, formigas, lobos, elefantes e pequenos símios. Os feromônios podem sinalizar interesses sexuais, situações de perigo e outros. Se realmente existirem na espécie humana e sua percepção se der de maneira inconsciente, estaríamos permanentemente emitindo informações acerca de nossas preferências sexuais e desejos mais obscuros sem saber?

Os defensores da Teoria dos Feromônios vão ainda mais longe: dizem que o "amor à primeira vista" é a maior prova da existência destas substâncias controvertidas. Os feromônios atestam – produzem reações químicas que resultam em sensações prazerosas. À medida em que vamos nos tornando dependentes, a cada ausência mais prolongada nos dizemos "apaixonados" – a ansiedade da paixão, então, seria o sintoma mais pertinente da Síndrome de Abstinência de Feromônios.

Com ou sem feromônios, é fato que a sensação de "amor à primeira vista" relaciona-se significativamente a grandes quantidades de feniletilamina, dopamina e norepinefrina no organismo. E voltamos à questão inicial: até que ponto a paixão é simplesmente uma reação química ?

O amor por cima das teorias

Apesar de todas as pesquisas e descobertas, existe no ar uma sensação de que a evolução, por algum motivo, modificou nossos genes permitindo que o amor não-associado à procriação surgisse calcula-se que isto se deu há aproximadamente 10.000 anos. Os homens passaram realmente a amar as mulheres, e algumas destas passaram a olhar os homens como algo mais além de máquinas de proteção.

A despeito de todos os tubos de ensaio de sofisticados laboratórios e reações químicas e moléculas citoplasmáticas, afinal, deve haver algo mais entre o céu e a terra...

Referências:

1. The Anatomy of Love, Helen Fischer, Norton, New York, 1992.
2. The Smell of Love, F. Bryant Furlow, Psychology Today, 3-4/95, pp. 38-45.
3. What's love got to do with it? The Evolution of Human Mating, Meredith F. Small, New York: Anchor Books, 1995
4. McEwen BS. Meeting report - is there a neurobiology of love? Mol Psychiatry. 1997 Jan;2(1):15-6.
5. Keller L. Evolutionary biology. All's fair when love is war. Nature. 1995 Jan 19;373(6511):190-1.
6. Mosher SV. A fool for love.
7. Spink G. Monash University - The Chemistry of Love.
8. Chemistry of Love. Niazi Archive Essays.
9. Radio National - The Health Report. Biology of love.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Planta sul-africana desenvolve apêndice para atrair pássaros


Um vegetal nativo da África do Sul, chamado de “rabo-de-rato” (Babiana Ringens) deu mais uma mostra da evolução para sobrevivência da espécie. Aparentemente, a planta desenvolveu no seu tronco, que não tem galhos, uma cúpula para que os pássaros possam ser atraídos, beber néctar e fertilizar a planta no processo.
A descoberta foi feita por pesquisadores do Canadá e da própria África do Sul. Eles observam, desde 2003, que a planta é polinizada exclusivamente por pássaros. Isso é muito incomum, especialmente porque a Babiana Ringens é uma planta rasteira, e as aves evitam se alimentar muito próximas do solo, devido a predadores que não podem voar. Logo, a planta teve que desenvolver uma tática toda especial para chamar a atenção dos pássaros.
Isso deu origem, ao longo do tempo, a uma cúpula cheia de pólen que não era parte original do vegetal. Os cientistas descobriram, a partir de experimentos, que esta cúpula existe apenas quando há pássaros na região: se não houver, ela encolhe e vira um órgão sem utilidade. Biologicamente, essa condição é chamada de relaxed selection (literalmente, “seleção relaxada”): quando certa parte do corpo vegetal perde a função, e é descartada naturalmente.

A água da terra pode ter se originado de Cometas



O gelo do cometa Hartley 2 é muito semelhante à composição isotópica dos oceanos


Um estudo publicado na revista Nature mostra que a composição isotópica da água dos nossos oceanos é muito próxima a do cometa 103P/Hartley 2.
A pesquisa é liderada pelo cientista Paul Hartogh do Instituto Max Planck em Lindau, na Alemanha, e Liz Dariusz, astrônomo americano da Caltech. O resultado levou em consideração dados e medições feitas pelo observatório Herschel ESA e da NASA.

A teoria mais aceita e bastante difundida é de que a origem da água na Terra teria ocorrido após 8 milhões de anos de seu nascimento, em um período chamado por astrônomos de Bombardeio Pesado Tardio, onde o planeta se encheu de água, trazida por cometas e asteróides.
Até pouco tempo, cientistas pensavam que seria sim possível que a água tenha se acumulado em nosso planeta pelo bombardeio de cometas. Não existiam provas de que isso era possível, o que fazia os astrônomos imaginar que o total de água advindo do espaço não ultrapassasse os 10%. A nova pesquisa diz que este percentual pode ser bem maior.
A descoberta do cometa Hartley 2 mostrou que a proporção de deutério e hidrogênio e seus isótopos é praticamente a mesma a dos oceanos. A água congelada deste cometa tem 1 átomo de deutério para cada 6.200 átomos de hidrogênio. A proporção da água dos nossos mares é de 1 para 6.400.
Os cientistas analisaram também a composição da água de outros seis outros cometas, entre eles os mais famosos, como o Halley e Hale-Bopp, mas nenhum deles tem a composição próxima como o Hartley 2. Astrônomos acreditam que este cometa tenha sua origem no Cinturão de Kuiper, um local onde existem milhões de corpos gelados, rodeando nosso sistema solar.

A sociedade dos Cupins

     Um cupim sozinho não é nada criativo. Vai e vem ao acaso sem parar, carregando um grãozinho de terra, quando muito. Mas se juntarmos um grupo deles, pequeno que seja tudo muda. Alguns vão se deter num ponto qualquer, demonstrar interesse pelo local. Ali depositam seu grãozinho de terra. O montinho atrai a atenção dos outros e pronto todos entram numa atividade febril, cumprindo tarefas diferentes e bem determinadas. Trabalham em sociedade.


     O cupim conta com um sistema ganglionar simples que reage a alguns estímulos de forma pouco perceptível e, às vezes, incoerente. Mas a reunião de um grupo deles faz aparecer uma espécie de atmosfera psíquica, uma vontade coletiva geradora de ações que exigem um certo grau de discernimento. Uma colônia de cupins, com vários milhões de indivíduos, consegue construir habitações sofisticadas, que exigem a solução de vários problemas complicados.

     Muitos estudiosos perderam tempo procurando o centro de comando do cupinzeiro, tal como os fisiologistas do passado que dissecavam cadáveres para descobrir a alma das pessoas. É provável que a alma do cupinzeiro esteja encoberta pela trofalaxia, um fenômeno tão estranho quanto a palavra que lhe dá nome.
Ela significa que um inseto social, como é o cupim, participa de um sistema de alimentação coletiva, que se distribui de indivíduo a indivíduo por contatos boca a boca. Mas a trofalaxia não significa apenas alimento. Ela também proporciona uma forma de comunicação, com a transmissão de mensagens químicas, gota a gota. No exato momento em que as mandíbulas de dois cupins se tocam, uma minúscula gotinha se desprende da boca de um deles e passa para a do outro. Uma fração de segundo e o recado já está passado.

     Até agora só foi possível decifrar algumas das dezenas, quem sabe centenas, de mensagens que uma gotinha dessas pode conter. Uma das que foram decifradas se parece muito com o que se convencionou chamar hormônio social. Cada indivíduo da colônia está                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       específico da categoria social a que pertence. Um cupim soldado carrega seu extrato próprio, da mesma forma que o operário ou as formas sexuadas, que garantem a reprodução da espécie.
     
     A sociedade dos cupins evolui mais ou menos como as células embrionárias durante o processo de crescimento de um organismo. Ao se difere   inciarem, elas se agrupam em tecidos diversos, que irão desempenhar diferentes funções nos vários                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 hormônios social do cupinzeiro, ao chegar à boca de um recém-nascido, provoca um estímulo químico em suas células, induzindo-as a construir o tipo de indivíduo de que a colônia necessita naquele momento. É a característica dos cupins de se alimentarem constante e reciprocamente que garante o perfeito funcionamento desse sistema.

     É ele que assegura a permanente circulação dos hormônios sociais entre todos os membros da colônia, pelo contato boca a boca. Na composição desse hormônio social entram parcelas ínfimas do hormônio individual de cada casta. Quando o cupinzeiro dispõe de número ótimo de soldados, estes circulam distribuindo boca a boca o hormônio social com a sua secreção particular, que vai agir sobre os recém-nascidos de forma inibidora: a secreção de soldado indica que eles não devem tornar-se soldados, pois há um número suficiente destes na sociedade. 
Quando, pelo contrário, não há soldados bastantes, menos recém-nascidos recebem essa secreção, e assim estão livres para se tornarem soldados, e não operários, de que o organismo estará bem suprido nesse momento. Tanto assim que eles terão recebido nos contatos boca a boca a dose de secreção inibidora que evita que eles se encaminhem para essa profissão.

     Se fosse apenas isso, já seria uma fantástica maneira de manter o equilíbrio social entre as diversas categorias de cupins. Mas o mecanismo é ainda mais sofisticado: garante, por exemplo, maior produção de operários quando a colônia necessita, também, aumentar a produção de alimentos. Aliás, o movimento exploratório de uma legião de operários à procura de alimentos é típico de um organismo que lança tentáculos ao redor de si mesmo. Nesse caso, os tentáculos são muito mais precisos que o tatear aleatório de uma ameba, por exemplo.

     Quando transportam o alimento aos diversos setores da colônia, os cupins operários desempenham um papel parecido com o dos glóbulos vermelhos do sangue, que percorrem todo o organismo nutrindo as células. Certas tarefas dos cupins soldados também têm semelhanças com as do sangue, quando bloqueia a ação de agentes agressores do organismo. Uma torrente de soldados é despejada na circulação do cupinzeiro assim que o alarma hormonal denuncia algum tipo de ameaça em qualquer setor da colônia: por exemplo, quando um animal estranho tenta invadir a casa de todos eles.
Nessa situação, os soldados entopem com seus corpos todas as vias de acesso ao local da agressão. Estancam a circulação na área afetada, morrem aglutinados e dão tempo para que, mais atrás, os operários construam crostas protetoras que isolem o intruso e cicatrizem as feridas que tornaram o superorganismo vulnerável.
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     A trofalaxia é responsável por essa harmonia de ações, mas não pode ser utilizada para explicar alguns fatos que ocorrem no cupinzeiro. Por exemplo, o momento das revoadas de acasalamento, conhecidas vulgarmente como aleluias. Elas proporcionam o encontro de machos e fêmeas oriundos de colônias diferentes, o que é muito importante para o fortalecimento genético das futuras colônias. As revoadas são muito perigosas para os insetos, pois sua aglomeração num único local, ao ar livre, atrai os animais predadores. O morticínio é sempre muito superior ao número de casais que conseguem se unir.

     As aleluias são, portanto, um momento crítico para todos os superorganismos que irão trocar material genético entre si. Os minutos são preciosos, justificando o fato de que todos eles lancem ao ar suas formas sexuadas exatamente no mesmo momento. E esse momento é cuidadosamente preparado. É o hormônio social que prepara os indivíduos férteis para abandonarem a colônia. Para isso, predispõe todo o superorganismo a esse acontecimento, deixando-o agitado como se fosse um animal no cio.

     As formas aladas, prontas para o acasalamento, são enviadas a compartimentos subterrâneos. O canal de acesso ao exterior permanece obstruído por centenas de operários, o que faz com que as formas sexuadas se comprimam aos milhares nas câmaras de espera, como se provocassem o inchaço das glândulas sexuais do superorganismo. O sinal para deflagrar simultaneamente a revoada de todas as colônias talvez seja uma simples chuva de verão. Não se sabe ao certo. Mas há um momento em que todas as formas sexuadas serão acometidas por um frenesi. Produzirão intensa vibração com as asas, provocando calor. O superorganismo fica então febril. O canal para o exterior é desobstruído e os casais se precipitarão para fora. Como se fossem o sêmen oriundo da ejaculação do cupinzeiro, eles flutuarão por breves momentos, como uma gigantesca e efêmera nuvem de insetos.

     O conceito de superorganismo foi formulado pelo entomologista americano W.M. Wheeler. Ele acreditou estar abrindo uma perspectiva incrível para a Biologia ao sugerir que cupinzeiros, colméias e formigueiros fossem estudados como simples indivíduos, em face dos mecanismos de seleção natural. Afinal, a autonomia característica do ser vivo, que resolve sozinho seus problemas de alimentação, reprodução e defesa, é expressada de forma diferente entre os insetos sociais. Ela é substituída pela ação das castas coletoras de alimentos, reprodutoras e defensoras. Nenhum indivíduo atua decisivamente como representante da colônia na luta pela sobrevivência.

     Nenhum membro pode representar isoladamente um modelo ou padrão responsável pela evolução ou pela sobrevivência da colônia. Esse padrão está contido nos genes transportados pelas formas sexuadas e só se materializa após a fecundação e a conseqüente formação de uma nova colônia. Visto desta maneira, o conceito de superorganismo parece coerente. Mas não se deve esquecer que o sucesso dos atuais superorganismos repousa sobre um sem-número de vitórias e fracassos, ocorridos há milhões de anos, quando insetos primitivos, machos e fêmeas, se dispuseram a viver em conjunto.

     Os atuais superorganismos indicam que alguns deles obtiveram grandes vantagens quando passaram a contar com um prole assexuada para garantir a sobrevivência da espécie. Então fica claro que o superorganismo é a expressão maior de uma espécie de inseto. Mais precisamente, talvez, de uma fêmea fecundada, pois a partir dela, e até que aconteça a próxima revoada para acasalamento, todos os genes que irão perpetuar a espécie estarão sob os cuidados desse dedicado e laborioso superorganismo.

     A questão permanece, e é a mais atual para os cientistas e pesquisadores que se ocupam com a vida desses insetos. Afinal, que são eles, exatamente, os cupins, as vespas, abelhas, formigas, todos os insetos chamados sociais porque vivem em vastos aglomerados onde as funções são cuidadosamente divididas por castas?
     Sem dúvida, é fascinante encarar uma formiga como uma célula de um organismo. Célula errante, que anda, comandada a distância pela ação de um hormônio social, ligada a uma legião de outras formigas exatamente iguais a ela. A tese de Wheeler fez grande sucesso, sobretudo entre os estudiosos da Sociobiologia, um novíssimo ramo da Biologia que pretende explicar o comportamento social dos animais a partir de fundamentos genéticos. Contudo, mesmo eles não utilizam o conceito do superorganismo em suas pesquisas, pois nada ajudaria na solução dos problemas de genética, comportamento e fisiologia com que se defrontam os pesquisadores que trabalham com os insetos sociais.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011


     A sopa química dos quais toda a vida evoluiu, eventualmente poderia ter sido mais complexo do que se pensava, segundo um novo estudo.

     
     Até hoje, um dos grandes mistérios para a ciência é a origem dos seres vivos. Acredita-se que a vida na Terra surgiu há cerca de 3,5 bilhões de anos, a partir de moléculas orgânicas simples. De acordo com a hipótese da evolução gradual dos sistemas químicos, criada por Alexander Ivanovich Oparin e John Haldane, existia uma espécie de sopa, rica em aminoácidos e proteínas, a partir da qual surgiram os primeiros seres vivos.

     Pouco se sabe sobre o último ancestral comum universal, conhecido como LUCA (last universal common ancestor), hoje rastreável em todos os domínios da vida: plantas, animais, fungos, algas, etc.
Entretanto, a nova pesquisa, publicada na revista Biology Direct, afirma que o organismo inicial pode ser mais sofisticado do que presumido, com uma estrutura complexa que faz com que seja identificável como uma célula.

     Os cientistas encontraram uma alta concentração de polifosfato, um tipo de moeda de energia existente nas células e, este polifosfato, representa a primeira organela universal conhecida. Organela é um termo utilizado para descrever estruturas, dentro das células, que apresentam funções especializadas e são, geralmente, delimitadas por membranas.

     Até então acreditava-se que as organelas estavam presentes apenas em organismos mais complexos, como plantas e animais – não sendo comum aos três ramos principais da árvore da vida (bactérias, archaebacterias e eucariontes).
No entanto, ainda em 2003, a mesma equipe envolvida neste projeto, demonstrou a existência de um acúmulo de polifosfato em bactérias, muito similar física, química e funcionalmente a uma organela chamada acidocalcisome, econtrada em muitos seres eucariontes unicelulares. Sendo assim, há indícios de que a acidocalcisoma surgiu antes da linhagens de bactérias e eucariontes se separarem na linhagem evolutiva, tornando-se a organela mais antiga conhecida até o momento.

     O estudo atual, realizado na Universidade de Illinois, envolveu a análise de uma proteína enzimática comum aos três ramos da árvore da vida: a V-H+PPase. Foram comparados os genes decodificadores desta substância de centenas de organismos.
A partir destes resultados genéticos, os pesquisadores então construíram uma “árvore genealógica”, que mostrou como as diferentes versões da enzima de cada organismo se relaciona.

     Para os pesquisadores, para que a enzima exista em todos os três ramos, ela tem que ter se originado no LUCA. "Há muitos cenários possíveis que poderiam explicar isso, mas o mais provável seria que já tinha a enzima antes mesmo de diversificação inicial da na Terra", explica o professor Gustavo Caetano-Anollés.
Estas descobertas sugerem que o LUCA pode ter sido mais complexo do que se imaginava, ainda mais até do que organismos muito simples que existem atualmente. Sendo assim, estes organismos pouco complexos existentes hoje, podem ter se simplificado durante o processo evolutivo, ao invés de se tornar cada vez mais complexos, como seria de se esperar.

“Alguns argumentaram que a razão das bactérias serem tão simples é porque elas têm de viver em ambientes extremos e se reproduzem muito rapidamente. Assim, elas podem realmente ser versões reduzidas do que havia originalmente. De acordo com essa visão, elas se tornaram simplificadas genética e estruturalmente”, afirma James Whitfield, professor de entomologia na Universidade do Illinois e co-autor do estudo.
"Nós podemos ter subestimado a complexidade deste ancestral comum”, completa o professor

sábado, 26 de novembro de 2011

A fruta que consegue transformar o gosto cítrico em doce

Não confie totalmente no seu paladar, ele pode enganar você. Conheça a fruta com poder de mudar a percepção do sabor dos alimentos.








Desde muito tempo a ciência nos provou que a sensação de doçura que sentimos ao degustar algum alimento é proporcionada pelos hidratos de carbono, também denominados como açúcares. Nós detectamos os sabores através dos sensores de gosto (papilas gustativas) na língua; mas esses sensores podem ser enganados pelos sabores.

Richardella dulcifica um pequeno fruto avermelhado, originário da África Ocidental, tem propriedades de modificar o gosto de alimentos ácidos e minerais diluídos e ácidos orgânicos em um sabor doce, basta mastigarem a polpa da fruta; este efeito tem duração de 1 a 2 horas.
Isso ocorre devido a uma glicoproteína chamada miraculina, composta de 191 aminoácidos e algumas cadeias de açúcares. Inicialmente a miraculina tem sabor azedo para o paladar humano, mas uma vez que a língua humana é exposta a miraculina a percepção do sabor de alimentos azedos ou cítricos torna-se doce por até uma hora.
Uma milésima parte de um grama de miraculina é suficiente para alterar a percepção do paladar humano; alguns pesquisadores acreditam que esta glicoproteína tem capacidade de mudar a estrutura dos sensores de sabor dos seres vivos.
Geneticistas japoneses têm conseguido produzir em laboratório através de engenharia genética, outras plantas produtoras de miraculina. Podemos citar a alface como exemplo.
Esta glicoproteína poderá também ser utilizada pela indústria de adoçantes e alimentos dietéticos. A fruta é largamente usada pelos praticantes de dietas, por ser um fruto com pouquíssimas calorias. Nos Estados Unidos ainda esta em fase de pesquisa para a comercialização e liberação pela FDA
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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Estrutura da enzima responsável pelo vírus da AIDS

Pela primeira vez em 20 anos foi desvendada uma peça chave do puzzle do HIV.
Uma equipa de investigadores do Imperial College de Londres e da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, conseguiu finalmente encaixar uma peça necessária para decifrar a complexidade do vírus da imunodeficiência humana.






Os cientistas desenvolveram um cristal que revela a estrutura da integrase, a proteína que se encontra no interior do vírus e que infecta o organismo, como a utilizada para copiar e passar a informação genética para as células.
O papel desta proteína é tão importante que uma das famílias de fármacos já utilizada atualmente atua sobre ela para controlar a infecção.

“Desmascarar a integrase ajudará os investigadores a melhorar a terapia actual, a evitar as resistências e acima de tudo desenvolver novos tratamentos”, explicaram os cientistas no trabalho publicado na revista Nature.

Para conseguir ver esta proteína em três dimensões, a equipa, dirigida por Peter Cherepanov, desenvolveu um cristal a partir de uma versão da proteína (PFV) − idêntico ao HIV.

Foram precisos quatro anos e 40 mil ensaios para ser possível visualizar a estrutura da proteína em três dimensões.

Este trabalho mostrou que a estrutura da integrase é diferente do que se acreditava. “Tem sido uma história muito emocionante. Quando começamos o projecto sabíamos que era muito difícil e que muitos tinham tentado o mesmo anteriormente. Porém, começamos pouco a pouco e apesar de fracassarmos muitas vezes, não desistimos. No final o nosso esforço foi recompensado”, conclui Cherepanov.

Micro RNAs movem-se por entre as células

Desde que pequenos pedaços de material genético, conhecidos como microRNAs (pequenos RNAs, com 20 a 22 nucleótidos, resultantes da clivagem de um RNA maior não codificante e que possui uma estrutura secundária), foram pela primeira vez caracterizados, os cientistas têm vindo a descobrir o quão importante são para regular a actividade dos genes nas células. 

Um novo estudo, publicado na revista «Nature», mostra agora que os microRNA também se podem mover de uma célula para outra para enviar sinais que influenciam a expressão do gene.

A descoberta acrescenta o microRNA à lista de moléculas móveis, como as hormonas, proteínas e outras pequenas formas de RNA, que permitem comunicações essenciais entre as células e o processo de desenvolvimento de um órgão.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Doênça pode "DESVENDAR" criatividade

A ARTE SEM MEMÓRIA.


''Posso desenhar algo para você – o que poderia desenhar?'', perguntou Lonni Sue Johnson, mas não esperou uma resposta. Ela desenhou uma linha encaracolada que se tornou uma auréola de cabelo encaracolado em torno do rosto feliz de um homem sentado, esticando uma perna para cima, equilibrando um pássaro grande em seu pé.
Em questão de minutos, ela acrescentou um gato usando um colar, estrelas e um pequeno avião sorridente. ''Gosto desta parte, pois se espera deixar as pessoas felizes’', disse ela, radiante. ''Toda folha de papel é um agrado’'.

Johnson, 61 anos, é uma artista e ilustradora cujo trabalho lúdico, colorido e frequentemente complexo já foi exposto em um amplo conjunto de publicações, como a capa da revista The New Yorker, livros infantis e de mistérios envolvendo assassinato e o jornal The New York Times – até mesmo um livro didático de física.
Tudo isso mudou em dezembro de 2007, quando foi vítima de encefalite viral, uma doença grave que provocou sérios danos em algumas partes de seu cérebro – incluindo o hipocampo, no qual se forma as memórias recentes. Ela sobreviveu, porém lembra-se de poucas coisas de sua vida anteriores à doença.
Apesar disso, ainda é capaz de criar obras, ainda que mais simples e infantis que seu trabalho profissional. Seu caso é raro, dizem especialistas, pois poucos artistas renomados continuam criando após serem acometidos por danos cerebrais graves.
Atualmente, cientistas da Universidade Johns Hopkins esperam que Johnson possa ajuda-los com antigas questões: quais partes do cérebro são necessárias para a criatividade? Com pouco acesso a sua experiência de vida, como um artista cria?
E, como coloca Michael McCloskey, professor de ciência cognitiva em Hopkins, o caso de Johnson ''levanta questões interessantes sobre identidade: neste caso, foi perdida grande parte que torna a pessoa quem ela é – o que resta para a arte?'' ''Contudo, vê-se em sua arte que ela ainda é praticamente a mesma pessoa’', ele continuou. ''Ela não se tornou uma folha em branco. Existe algo sobre a identidade que está desassociado à memória’'.




Uma pequena exibição das obras de Johnson antes e depois de sua doença foi aberta no dia 17 no Walters Museum, em Baltimore. O site do museu, thewalters.org, inclui um vídeo sobre Johnson.
Apesar de seu trabalho ter mudado, manteve parte de sua essência única, conta Barbara Landau, também professora em Hopkins e envolvida na pesquisa, ''É possível reconhecer que se trata de Lonni Sue’', disse ela. ''Sua personalidade está preservada’'.
Os pesquisadores vieram acompanhando Johnson, testando sua memória e conhecimento, apesar de não possuírem uma hipótese específica. ''É mais parecido com uma história investigativa’', disse Landau. ''Consegue-se uma pista e se segue. Às vezes dá certo e às vezes não’'.
Por sorte, o dano cerebral em Johnson limitou-se a lesões consideradas mais como discretas do que difusas ou penetrantes, dizem os cientistas. Sua perda de memória não foi como a amnésia de filmes e romances: ela sabia quem era e reconheceu sua mãe, Margaret Kennard Johnson, também artista, e sua irmã Aline.
Entretanto, não se lembrava de acontecimentos importantes de sua vida. Ela não sabia que havia sido casada por dez anos e foi necessário lhe contar várias vezes que seu pai havia morrido, apesar de ter sido duas décadas antes da doença.
Sua família a situou com muitos detalhes, então ela sabe que foi artista profissional, que costumava tocar violino, viola, violão e piano e que possuía e pilotava aviões. No entanto, não consegue se lembrar ou descrever episódios específicos de sua vida e se surpreendeu na semana passada, quando sua irmã a lembrou de que havia vivido em uma cobertura com um jardim em Manhattan e que lecionava arte. ''Oh, eu morava? Mesmo?'', disse ela com um grande sorriso. ''Adoro lecionar! Sinto falta disso... Não me lembro, pode me contar mais a respeito? Obrigada por me ajudar a me lembrar do que fazia’'.


No começo da recuperação de Johnson, ela teve de reaprender a andar, falar e comer, conforme conta sua irmã. Ela não reconhecia o roxo, o preto e o laranja e não conseguia colocar uma caneta sobre o papel.
Mas sua mãe, que havia sido sua mentora, enquanto artista, trouxe-a de volta para a arte. Dois meses depois de ter sido diagnosticada, sua mãe levou um marca-texto verde e desenhou um triângulo; a filha pegou um marca-texto azul e o copiou.
Alguns meses depois, começou a se entusiasmar com caça-palavras e começou a criar seus próprios jogos de palavras e por fim, incorporando ilustrações e brincando com homônimos e trocadilhos.
''A palavra 'planetem a palavra 'plan’ dentro dela e se for acrescentada a letra T, consegue-se a palavra 'planet’'', disse Johnson na semana passada, com uma voz quase que conspiratória, após desenhar um avião.
Sobre lápis, disse ela, ''Amo a palavra 'pencil’. Tem a palavra 'pen’ dentro dela e te deixa pensativo’'.
Esse é outro mistério a ser explorado por cientistas. Johnson possui um vocabulário excepcional – em testes, ela identificou corretamente as palavras 'jacente’, 'equestre’ e 'paquímetro’ – apesar do dano no lóbulo temporal frontal, parte do cérebro considerada um núcleo semântico e associado à comunicação, disse McCloskey. Ela também possui habilidades de percepção visual e espacial extraordinárias, com notas extremamente altas em testes que exigiam que ela identificasse objetos corriqueiros de fotos tiradas de um ângulo incomum – como uma cadeira, vista de baixo.
Quando cientistas lhe pediram para copiar um desenho complexo, desenhou rapidamente uma réplica praticamente perfeita. Só que ela não consegue manter a imagem em sua mente: quando a ilustração foi virada de ponta-cabeça e pediram que ela a desenhasse um tempo depois, havia esquecido completamente o que era.
Em outro exame que suscita mais perguntas acerca da memória, da identidade e da arte, pesquisadores inseriram uma das pinturas de Johnson em uma pilha de cartões postais, mostrando pinturas de artistas famosos e pediram que ela as identificasse.
''Imaginamos se seu conhecimento sobre obras famosas e artistas havia sido poupado, pelo fato de ser muito importante para ela’', disse McCloskey. ''Não foi – com uma exceção clara. Quando ela vê seu próprio trabalho, reconhece imediatamente como seu. Ela disse: 'Esse é meu’''.
Sua nova obra é diferente do seu antigo trabalho com aquarela. Ela desenvolveu seu próprio método para misturar e fundir cores; seu trabalho era conceitual e detalhado, espalhando-se ao longo dos anos. Agora é simples, rápido e mais livre, a lápis, com canetas coloridas, ou ambos; ela termina desenhos em apenas uma sentada. Ela consegue se concentrar naquilo à sua frente, mas uma vez que deixa o desenho de lado, esquece-se daquilo e não volta mais para o trabalho.
Contudo, a obra ainda ostenta sua inconfundível assinatura: a alegre exuberância que caracterizou muitos de seus trabalhos antigos, normalmente ao lado de sua marca registrada de aviões, gatos arteiros, estrelas e luas crescentes.
Ela passa horas do seu dia desenhando e criando complexos jogos de palavras. Ao ser questionada por que gostava de desenhar, ela respondeu: ''É uma linguagem, uma linguagem visual que pode alcançar pessoas no mundo todo, mesmo que não falem a mesma língua. As memórias voltam e se tem mais ideias... É um jeito adorável de compartilhar coisas e entrar em contato com pessoas em todos os lugares deste adorável planeta. Adoro a palavra 'planeta’''. Quando sua mãe lhe pediu para tocar sua viola, ela concordou e tocou uma obra vívida, razoavelmente bem, com um sorriso no rosto. Johnson lhe pediu para tocá-la novamente, ''alegremente’', conforme indicado pelo compositor.
''O que você acabou de tocar?'', sua mãe perguntou. ''Qual é o nome dessa obra?''.
Sua filha olhou para a partitura: Rita Asch, amiga da família, lhe compôs essa obra após ter ficado doente.
''Chama-se, por incrível que pareça’', respondeu Johnson, parecendo confusa, '''Valsa para Lonni Sue’. Por Rita Asch’''.

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